Sempre acreditei que nem tudo o que acontece em nossas vidas é sobre nós. Se alguém nos trata com indelicadeza, se somos ignorados ou esquecidos em um convite, o segredo está em não levar para o lado pessoal. Nem tudo é arquitetado para nos atingir; as pessoas se esquecem, se distraem e carregam bagagens que sequer imaginamos. Mais do que isso: às vezes, o “acaso” de estarmos em um lugar difícil não é um teste para nós, mas uma missão na vida de outra pessoa.
Recentemente, o trabalho me levou para Sofia, na Bulgária. Encontrei uma cidade rica em história, mas de contrastes profundos. No Leste Europeu, o inverno é rigoroso e as pessoas, à primeira vista, parecem mais duras e econômicas no sorriso. O impacto foi grande, especialmente após uma temporada na Ásia, onde a humildade e a alegria transbordam de forma leve. Para completar o cenário desafiador, mudei-me na semana do Natal, recém-operada, sem família ou amigos por perto.
No entanto, eu sabia que aquela história não era sobre o meu isolamento. Todas as manhãs, eu me perguntava: “Qual a razão de eu estar aqui?” Eu sabia que não era apenas pelo trabalho. Estava atenta para não deixar passar a oportunidade de ser instrumento na vida de alguém. Quando me matriculei na faculdade de Psicologia, meu objetivo era claro: salvar ao menos uma vida. Com o tempo, entendi que não precisamos de um diploma para isso; palavras doces, olhares de ternura e abraços verdadeiros têm o mesmo poder de cura.
A resposta para as minhas perguntas surgiu na mesa ao lado, no escritório.
Comecei a observar a Rafa. Jovem, doce e com o rosto adornado por piercings que, para os mais desatentos, poderiam sugerir rebeldia. Para mim, revelavam fragilidade. Notei que ela era alvo constante de bullying por parte de colegas de trabalho. Observei as intenções por trás das ações: as piadas, a agressividade e a necessidade dos outros de se destacarem diminuindo alguém.
Decidi ouvir a sua história. E que história. Rafa carregava as marcas do abandono materno, uma relação conturbada com o pai e um passado de luta contra a dependência química. Hoje, sua válvula de escape era o açúcar; ela “comia” suas emoções para suportar o vazio de nunca ter se sentido pertencente a lugar nenhum.
O meu “sim” ao propósito começou com um convite: “Vamos treinar comigo pelas manhãs?” Ela aceitou de imediato. A partir dali, a conexão floresceu. Ela me acompanhou na dieta, tornou-se disciplinada e, em muitos momentos, passou a ser a minha própria motivação. Ela até parou de fumar.
Mas ainda faltava a voz. No ambiente de trabalho, o respeito só existia quando eu estava por perto. Percebi que minha missão só estaria completa quando ela pudesse se defender sozinha. Intermediei uma conversa com a gerência. Em uma reunião tensa, mas necessária, Rafa finalmente conseguiu expressar como as agressões verbais a afetavam. O limite foi estabelecido. O gerente geral foi enfático: o desrespeito não seria mais tolerado.
Ali, vi a justiça ser feita. Senti que minha missão em Sofia havia sido cumprida.
A recuperação da autoestima da Rafa é um trabalho diário de formiguinha, envolvendo disciplina e a coragem de impor limites. Mas hoje ela tem o que não tinha antes: motivação e o entendimento de que merece ser respeitada.
Às vezes, a vida nos coloca em lugares desconfortáveis e frios apenas para que possamos ser o sol de alguém. No fim das contas, quando ajudamos alguém a se salvar, somos nós que encontramos o verdadeiro sentido de estarmos vivos.

Tatianne Lourenço
Paulistana, amante de desafios, viagens e conversas profundas.
Uma imigrante cheia de histórias e saudades, encantada pela Ásia, sonhadora, adoradora de Deus e eterna estudante da psicologia e suas diversas complexidades.
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