Costumo dizer que meu lar é meu laboratório. Outro dia vivi uma cena simples que me levou a refletir e despertou em mim o desejo de escrever um livro sobre isso.
Minha filha, de oito anos, aproximou-se enquanto eu revisava um manuscrito no computador. Com a naturalidade típica das crianças, ela disse:
“Me ama.”
Fez uma pausa e completou: “Brinca comigo?”
A frase soou quase como uma afirmação antes de se tornar pergunta. Temos um combinado de horário para brincar e aquele não era o momento. Quase respondi que não dava; respirei fundo, olhei nos olhos dela e percebi que, naquele dia, ela precisava de mim.
Ser mãe que trabalha em casa é bênção e desafio ao mesmo tempo. Permanecemos perto, acompanhamos cada fase dos filhos, enquanto também lidamos com a sensação constante de estarmos divididas entre duas demandas legítimas: o trabalho e a maternidade. Em muitos momentos, o coração se aperta com uma pergunta silenciosa: será que estou conseguindo equilibrar tudo?
A maternidade real está longe de ser perfeita. Ela acontece entre prazos, louça na pia, notificações que chegam sem parar e tarefas que parecem não terminar. Nesse cenário, muitas mães carregam uma culpa discreta, a sensação persistente de que poderiam estar mais presentes.
As crianças, contudo, têm uma maneira muito direta de nos lembrar do que realmente importa. Para elas, brincar não representa apenas passatempo, mas sim linguagem de amor. É no chão da sala, em uma história inventada ou em uma brincadeira improvisada entre um compromisso e outro que muitas se sentem vistas e reconhecidas como importantes.
Não se trata de estar disponível vinte e quatro horas por dia, já que a vida não permite esse tipo de disponibilidade constante. O desafio está em aprender a perceber os sinais, já que uma frase aparentemente simples pode carregar um pedido profundo de conexão.
Os filhos crescem ouvindo muitas palavras dentro de casa. Algumas passam rápido; outras se transformam em experiências vividas, memórias construídas e vínculos fortalecidos.
Não temos controle sobre tudo o que nossos filhos enfrentarão no mundo lá fora. Ainda assim, temos responsabilidade sobre aquilo que oferecemos dentro de casa: palavras, gestos e, sobretudo, presença — já que é nesse espaço que começa a formação de quem eles se tornarão.
Muitas mulheres se cobram por não conseguirem oferecer aos filhos bens materiais. Ainda assim, um dos gestos mais poderosos que podem oferecer às próximas gerações continua sendo a presença, aquela que, mesmo sem discursos longos, comunica com clareza:
“Você é amado, importante e pertence a este lugar.”
Algumas das memórias mais fortes da infância nascem desses pequenos instantes em que alguém escolheu interromper o ritmo do dia para estar verdadeiramente presente. No fundo, amar pode ser algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão profundo quanto atender ao convite inesperado de uma criança:
“Me ama… brinca comigo?”

Sandra Selino
Sandra Selino é educadora, escritora, editora e mãe. Fundadora do movimento Blindados pela Palavra, um projeto educacional dedicado à formação de crianças e famílias por meio da literatura e da educação baseada em princípios e valores.
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