Esse tema nasceu nos bastidores da minha própria trajetória de vida.
Caminhando para duas décadas na área do desenvolvimento humano e uma buscadora incansável das minhas próprias respostas e superações, compreendi que somos camadas, somas de gerações. A vida não acaba em nós. Ela é potente, tem sua força e segue adiante.
Mas segue como?
Sobrevivemos a abandonos, abusos, ausências e repetições inconscientes de padrões e comportamentos que não começaram em nós. Ainda assim, podemos escolher interrompê-los.
Aqui, não trago a consciência do peso da mudança em si, mas a clareza de que podemos assumir responsabilidade pela nossa vida, pela nossa felicidade e pelo nosso destino, em vez de apenas sobreviver reagindo a tudo e a todos — e seguir repetindo.
Depois de muitos processos pessoais, me dei conta de que eu havia aguentado, havia superado e havia encontrado forças para vencer muitas situações difíceis.
Mas e a próxima geração?
Não falo isso no sentido de enfraquecê-la. Pelo contrário.
Falo da responsabilidade que nasce quando caminhamos em busca de consciência.
Será mesmo necessário que a próxima geração atravesse as mesmas repetições?
Porque retrabalho são anos. São décadas. E repetições também – são gerações.
Ao trazer à tona questões de exclusão, abusos e silenciamentos que permanecem no ar, muitas vezes de forma sutil e sem nome, ampliamos a consciência e abrimos espaço para novos caminhos.
Não preciso seguir repetindo um padrão que anula, que distorce, que faz assumir responsabilidades que não eram minhas, mas chegaram até mim.
Ao longo da minha própria trajetória, interrompi ciclos de silenciamento, padrões que não me pertenciam e histórias que pareciam destinadas a se repetir.
Não foi um processo simples.
Foi um caminho de consciência, responsabilidade e reconstrução.
E é justamente por isso que quero encorajar outras pessoas a fazerem o mesmo.
Também vejo a alegria e a leveza surgirem quando silenciamentos são interrompidos.
Quando crianças e adolescentes deixam de carregar responsabilidades que nunca deveriam ter sido suas.
Quando peso da confusão sai de cena.
Da falta de clareza.
Da responsabilidade precoce.
Do não merecimento.
Do aguentar calada.
Do sentimento de inferioridade.
Abandonos, abusos e violências precoces comprometem a lente do discernimento.
Ofuscam nossa identidade.
Distorcem a forma como enxergamos a nós mesmos, os outros e a própria vida.
E talvez o mais importante seja compreender que esta não é uma conversa sobre culpados.
Não se trata de apontar dedos para quem veio antes. Eles já fizeram a parte deles. Repetindo e transmitindo em inconsciência.
Fazendo o melhor com o que tinham e com o que sabiam.
Se a lente do conhecimento e discernimento chegou até você, trata-se de olhar com clareza para aquilo que foi repetido por gerações e assumir a responsabilidade de fazer diferente.
Porque, quando ganhamos consciência, deixamos de viver apenas reagindo à nossa história.
Passamos a participar da construção dela.
Podemos ajustar as lentes.
Resgatar nossa identidade.
Fazer escolhas mais alinhadas com quem somos.
E, principalmente, iniciar novos ciclos.
Não sei o que aconteceu com você até aqui. Mas quero afirmar uma coisa:
Não é sentença.
Talvez um dos maiores legados que possamos deixar não seja aquilo que conquistamos.
Mas os ciclos que escolhemos interromper.
Não a perfeição. Mas a coragem de interromper padrões que já não servem e abrir espaço para relações mais saudáveis, conscientes e verdadeiras.
Você não precisa caminhar sozinho.
Você pode encontrar espaços seguros, apoio, acolhimento e transformação.
Porque aquilo que não começou em você pode encontrar em você um ponto de interrupção.
Não começou em mim.
Mas acaba em mim
Um movimento pela interrupção dos padrões, ciclos de violência, silenciamento e sofrimento que atravessam gerações.

Marcia Guimarães
Marcia Guimarães é Psicoterapeuta e Arquiteta da Identidade.
Criadora do método Psicofotografia e idealizadora do movimento 🍁 Não Começou em Mim. Mas Acaba em Mim.
Há quase duas décadas ajudando pessoas a reconstruírem sua identidade e interromperem padrões emocionais.
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